Neste espaço se divulga a actividade do grupo restrito CantOrfeu.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

02.01 - Poetas - Lizete Abrahão * Enquanto o mundo dorme



Apenas o silêncio escuta o meu canto,
quando a noite se chega em teu lugar,
e a minha boca ela se põe a beijar,
amordaçando-me o grito do pranto.

Procuro-te, em desvario, nos braços dela,
com olhos de espera e lábios desertos.
Meus pés nus, esmagando o chão, incertos,
em vão, levam-me o peito à janela.

De séculos, esse tempo soturno
sangra cada minuto, em vã miragem.
E o desejo ansioso te faz imagem
no devaneio do meu oásis noturno.
 
Ouço, até, teus passos, na noite enorme
de sonhos acre-doces e ansiedades.
Na planície do silêncio, as saudades
ecoam, sem fim, enquanto o mundo dorme.

As horas, como as contas de um rosário,
vão terçando a madrugada, em ladainha.
Na manhã, esta dor que é toda minha
ficará à sombra do meu calvário.

Vou te esperar até o sol se pôr,
para que a noite não me silencie mais.
Quando vieres, não venhas tarde demais,
pois já terei te esquecido de dor.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * A palavra



A palavra, suspensa, balouça
ao sabor dos afagos da brisa
e, num vago murmúrio, precisa
proibidos anseios de moça...

É o fruto em promessa da flor,
suculento, a sonhar-se maduro.
Ai, anelos do tempo futuro
de ousadias de estios de ardor!

E a palavra é mulher e fascina!
E o feitiço entontece e cativa!
E o poema, nas formas a haver,

encandeia-se na tremulina
que, gaiata, se dá e se esquiva,
balouçando entre o ser e o não-ser...

02.14 - Poetas * Geraldes de Carvalho * A folha



A folha só é folha
se não falha

-que deus
me valha...-

A folha era folha
mas caiu
foi prá puta
que a pariu.

A puta que a pariu
é uma beleza
costumamos chamá-la
natureza .

E a natureza
acolheu a folha
com a sua
costumada
gentileza

Fez dela uma flor
mas não me satisfez
porque era verde
e verde não é cor
de flor.

O que farei com ela
gritaria
mas ninguém
a ouviria.

Então a natureza desistiu.
Fez uma nova folha
e então
adormeceu
-pra não dizer
dormiu-




Ps :
Mas
depois do inverno
virá o verão
-- para alguns, não.

domingo, 28 de agosto de 2011

03.02 - Registo * O livro está na mesa * Eliane Couto Triska

Querida Eliane, saudando o evento ontem ocorrido, com o abraço de CantOrfeu.

02.10 - Poetas * Herculano Alencar * A flauta mágica


Ao longe, bem pra lá do infinito,
ouve-se, da flauta, o assobio,
como o sussurro de um lar vazio
que a qualquer hora vai soltar o grito.
 
Um riso torto, um olhar contrito,
uma carícia em busca de um seio,
uma paixão no coração alheio,
qual um poema ainda não escrito.
 
Ao longe, bem pra lá do infinito,
já pode-se enfim ouvir grito
egresso da prisão do lar vazio.
 
A flauta assobia sem receio,
enquanto acaricio um belo seio
e deixo a poesia entar no cio.
 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

02.02 - Poetas * Lílian Maial * Entropia

Poupa-me da travessia de noites extraviadas,
Da ditadura dos suspiros da palavra,
Da moldura do teu sorriso pérsico.
*
Livra-me da ensurdecedora notícia dos teus dias,
Da premissa das frestas de olhares vagos,
Do impulso premente de fiar ausência.
*
Preserva-me das lôbregas profundezas da covinha do teu queixo
E do abismo abrolhoso do silêncio,
Em queda livre por anos-luz de apascentar dúvidas.
*
Quisera desvendar-te, conhecer teus oblíquos motivos,
Enfeitar teus suores de rubor pérfido,
e colher o rescaldo do ofertório de claustro mariposeado ao teu redor.
*
Expulsa-me da cama de opalina,
Da torturante mácula do vazio,
E lança-me à demência, envolta em sídon,
Para que eu possa riscar-te de mim
E enterrar o olhar cisalhante,
Pousado nos galhos reumatóides
Do solstício do que não vivi.

02.02 - Poetas * Lílian Maial * Perversão


Há um doce descontentamento na poesia.
Uma saudade, um eco,
um barco sem vento.
Coisa de amor esquecido.
*
No esquecer, sempre haverá parte do que foi,
deixado nas letras silenciosas.
*
A poesia é inútil.
Há versos demais, beleza demais
e pouco chão.
*
Não é tarde, contudo.
Preciso partilhar a luz dos meus olhos
e acordar da tua existência,
onde só tu existes.
*
Faria tudo de novo
e mais nada!
*
Coisa perversa é a paixão:
confunde, explode,
é breve,
como uma febre
e passa.
*
Desejo apenas viver mais uma noite.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * O meu dever

Bartolomeu Dias, ousando o Adamastor,
no Cabo das Tormentas / Cabo da Boa Esperança.

*
Devo cantar e canto as glórias celebradas,
que emergem da raiz e os louros sacralizam...
Devo chorar e choro as perdições passadas
e, agora, as perdições que os tempos profetizam.
*
Devo gritar e grito, ao frio deste cais,
que outroragora o mar será o meu caminho...
Devo dizer, e digo, o não de nunca mais
à renúncia onde sou e mísero definho.
*
Não quero ser nem sou a rês que, no redil,
espera, resignada, o tempo da matança.
Aqui, eu quero ser, ao sol do mês de Abril,
a vida a florescer auroras de esperança.
*
E canto e cantarei o assombro dos pinhais,
que são este destino ousando além do cais!

*
11 de Junho de 2011.
Viana * Évora * Portugal

02.05 - Poetas * Eliane Couto Triska * Meus anos...


(Um mimo do Face do Franco Peluso)




Tenho 58 anos de saudades

e outros tantos

sem saberem a idade...




Canoas, 21 de agosto de 2011.

sábado, 20 de agosto de 2011

07.01 - Parcerias * Ah, Poesia! * José-Augusto de Carvalho-Lizete Abrahão


Ah, Poesia!


Ah, Poesia, eu não consigo ser
poeta neutro em Torre de Marfim!
Se foi o que quiseste ter de mim,
prefiro te perder a me perder...

Talvez poeta seja, mas, primeiro,
sou homem por direito e condiçã
Um homem que tem norte e tem timão
não pode ter grilhões nem carcereiro.

Eu canto as asas livres deste Céu!
Eu choro a flor que o tempo emurcheceu!
Eu luto contra todas as algemas!

Por transgredir aceito ser teu
e, por defesa, alego que meu eu
aqui te enfrenta com ou sem poemas!

José-Augusto de Carvalho
23 de Março de 2006.
Viana * Évora * Portugal

***
 
Ah, Poesia!

Lizete Abrahão
24.03.2006

 
Ah, Poesia, eu só consigo ser
poeta plena, entre o amor e o fim.
Foi isso que quiseste ser em mim:
perdi-me em ti, em mim vieste ser...

Mulher eu sou e dou-me, assim, inteira
Nas noites que me cortam como aço,
Aos versos que, da tua luz primeira,
Acendem o desejo em que me faço...

Eu canto, do meu homem, a ausência
Eu grito pela flor que não sou mais
Eu choro a dor que em meus lábios calo...

Meus versos são minha vâ urgência
Do meu ser, eles brotam imortais,
Mas morrem entre mim e o que não falo...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

02.03 - Poetas * Maria da Graça Almeida * Ao meu amor


 
Sem dúvidas, hoje eu sei,
você, sim, é o meu rei,
ontem foi príncipe infante,
hoje é meu herói relevante!
*
Um homem de olhar menino,
meu tesouro masculino,
da lira, o tom maior,
das minhas metades, a melhor!
*
O dono do meu amor,
forte luz multicolor,
compõe a paixão no plural,
amaina meus vendavais!
*
Seu ser calmo e profundo
traduz a essência do mundo,
resgata com temperança,
minha alma criança.
*
Conquista-me de um certo jeito,
em versos mais que perfeitos.
Com gestos de pura doçura,
espalha magia e ternura!
*
Conferindo seu meigo rosto,
enquanto amiga e amante,
assumo tão alto posto,
serena e confiante!
*
Rogo que nossos destinos
caminhem sem desatinos,
trilhando as mesmas pegadas,
juntos e de mãos dadas.
*
E quando outra vez crianças,
cabeças pálidas, brancas,
que, frente a indícios de escombros,
um do outro tenhamos o ombro!

07.00 - Parcerias


Porque se publicam parcerias poéticas no grupo restrito CantOrfeu,  considerou-se oportuno criar no blogue CantOrfeu um espaço para a sua divulgação pública.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

02.17 - Poetas * Fernando Rodrigues Almeida * Metamorfose e Enigma das turbas

Fernando Rodrigues Almeida

***
Metamorfose

 

Caiu ubíqua como pedra e era lágrima

Seus cristais eram estrelas

Rolaram e molharam o universo

Angola, 04/07/2011


*
ENIGMA DAS TURBAS


Em Inglaterra não havia sismos
mas havia abutres
e cismas que espreitavam.
Faltavam os cadáveres.
E criaram-se noites de luar
e foices virgens.
Procuraram-se sombras nos escombros.
Mas não havia escombros.
Não havia esperança entre as brumas densas.
Ungia-se o silêncio de sombras.
E havia abutres que espreitavam
enfeitados de plumas.
Depois ceifaram a esperança
com suas foices virgens.

13/08/201

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

02.16 - Poetas * Xavier Zarco * Estou aqui e escrevo um poema

Xavier Zarco

***

Estou aqui e escrevo um poema 



estou aqui e escrevo um poema
para o outono
mas sem folhas caindo caiando
o chão de vento de cores mas sem branco
.
escrevo com a morte ao meu colo
como um gato que me atura
e me acompanha
sem nada em troca pedir

talvez como o alves barbosa
que forte pedala
mas sem força
mas com a força
que há quando a meta urge rente à alma
.

ou talvez como o belarmino
com todos os tapetes reclamando
o seu corpo
chamando o seu nome
e no entanto
ficando para o aplauso da vitória

.

estou aqui
e escrevo o meu outono
porque a morte de um poeta
é o início
somente o início o estado puro
o palimpsesto do poema
 

.


02.08 - Poetas * Tuphy Mass * O sonho de Tuphy


Na limpidez do céu, um infinito azul
envolve, no seu manto, a terra abandonada.
Assombros de passado acenam mais a sul…
Areias de ouro e sol de uma magia alada…

A voz de Sherazade enfeitiçando ainda
as noites de luar, em fios de alva renda…
Há cânticos de amor, num sonho que não finda…
Seu corpo, belo e nu, enleia a minha tenda…

 
A dádiva da vida, em sôfregos carinhos,
enlaça-me num todo anelos de pureza
e sinto crepitar o fogo em nossas veias…

 
As rotas do deserto, os múltiplos caminhos
que cruzo milenar em busca da riqueza
dos astros de outro céu que emerge das areias…

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * Para além do Tempo



 
No princípio era o verbo... e Deus estava só!
Na graça da nudez, a terra seca, em pó...
 
Da fonte que mitiga a sede do infinito,
tirou um pouco de água e o pó dessedentou...
Da lama resultou o barro... e levedou
Depois, foi só criar. Assim nasceu o mito.
 
Deste mistério santo, a carne é Deus e barro!
E o barro, que é de Deus, recusa os adjectivos.
É barro e nada mais. A graça que há num jarro
também lhe vem de Deus. Sem outros aditivos.
 
A débil mente humana é que perversa impõe
insólitas noções e o santo barro inquina...
Mas, ai, se a gente (im)põe, só Deus é que dispõe...
e uma graça de Deus só pode ser divina!

 

16 de Março de 2002
Viana * Évora * Portugal
Do livro em preparação: «Esta lira de mim!...»

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * Livro aberto


                                                                                                    Para  Lílian Maial

 
Nas páginas do tempo, em livro aberto,
o testemunho inscreve a rebeldia:
a solidão da sede do deserto
esconde sempre um poço de água fria.

As coisas nunca são o que parecem.
Do céu, o vento as nuvens afugenta.
Se oásis de ternura reverdecem,
que poço de água fria os dessedenta?

Que Estrada de Damasco, oh Síria antiga,
por entre os desencontros dos abutres,
no tempo sobrevive livro aberto?

Que poço de água fria te mitiga,
na solidão da sede do deserto,
se há tanto tempo só de sal te nutres?

 
3 de Abril de 2009.
Viana de Fochem*Évora*Portugal

terça-feira, 9 de agosto de 2011

02.15 - Poetas * Nathan de Castro * Poema de dançar

Nathan de Castro

*** 
Poema de dançar


Eu danço, pois a música me embala,
acende o sangue e agita o esqueleto.
E danço, pois se as noites são de gala,
delas retiro os sóis dos meus quartetos.

Eu danço, pois dançando a dor se instala
na plenitude triste que cometo,
e danço, pois o encanto nada fala
das lágrimas que entrego a esses sonetos.

E danço, aqui, sozinho, a nossa música!
E piso nos teus pés... E chamo as luas
para os momentos tolos que alimento!...

Eu danço, pois a dança é a minha túnica,
ajusta-se ao meu corpo, e tem as tuas
curvas gravadas, no bailar que invento!

02.09 - Poetas * Gabriel de Fochem * Ontem e hoje

 
 
Hoje é o tempo que tenho.
Hoje é o tempo que sou.
Sou o tempo que encontrou
o meu tempo, que sustenho
na certeza dos meus passos
e no calor dos teus braços.

Diverso outro tempo tive
do tempo sempre em viagem.
Trago o tempo na bagagem
enquanto o tempo em mim vive.
Salto no espaço, sem rede...
Mergulho num mar de sede!

Rasgo os longes de infinito!
Ninguém sufoca o meu grito!

 
7 de Outubro de 2002.