Neste espaço se divulga a actividade do grupo restrito CantOrfeu.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

02.07 - Poetas * Gisele Maria Zambonini * Insônia


Todos dormem. Tudo dorme.
Escura é a noite lá fora.
Esse espaço que me ocupa e me consome
quanto menos viva estou e mais insone, me devora.

Arrasta o tempo perdido a passagem da Hora.
... Ah, se eu pudesse, ía-me embora
Só pra ver se tem lua
na noite escura lá de fora ...

Na verdade, esse contexto (se é que me pertence
algo que não me tem a mim e que não mereço)
cada vez menos me conhece, quanto mais o tal contexto desconheço :

- Não me encontro e não me reconheço
em mais lugar nenhum, fora dos teus braços.
Em que princípio, em qual começo
em qual pedaço
da grande roda dos espaços
estou eu, que não anoiteço ?!

Nesse céu oposto
a escuridão desenha o teu rosto
a minha insônia é a tua boca

Um frio que é além do frio me deixa louca
e a minha loucura resta agora exposta temporariamente
apenas pra mim, apenas noturnamente...

Porque quando o sol clareia o dia
eu preciso da minha sanidade
pra proteger essa fantasia
(quem me visse, de mim jamais diria...)

Mas protejo com vontade,
sinceramente
esperando anoitecer só pra poder enlouquecer
e quando tudo dormir
eu poder sonhar e sentir
tudo o que me faz arder...

E talvez ... adormecer .

domingo, 1 de agosto de 2010

02.06 - Poetas - Conceição Paulino * terra de ilusão

Conceição Paulino


***

terra de ilusão



o meu país é um sonho sonhado
por soldados e marinheiros. lenda
antiga de um paraíso encontrado.
feira franca, leilão d'almas em venda.

meu país, mundo nunca conquistado
ao reino da fantasia é senda
de um caminhar só mal esboçado
onde, após o erro, não há emenda.

o meu país é contínuo sonhar
povoado por almas a penar
penas passadas. terra de ilusão...

meu país, contínuo derruir
de esperanças que perdemos a rir
enquanto se nos parte o coração
.
In o meu país é um sonho sonhado
julho de 2009.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

02.05 - Poetas - Eliane Couto Triska * Alma poeta

Eliane Couto Triska
***

Alma Poeta




Qual a noite nas falas do universo,
Degrada-se no dia e se alheia
Do infortúnio mesquinho em reverso,
E aprisiona a poeta em sua teia?
*
Nas fronteiras, as básculas do mundo,
Curioso, a embalar-se em finas cordas,
Há dança de um fetiche vagabundo,
Caído da palavra e suas bordas.
*
Ó Vida que me assombra em seus beirais.
Inscrito livro, alma de uma história,
Contada por poetas que, jamais!...
*
Enfermos, ilegíveis e em desgraças
Ou mais nobreza que os incite à glória,
Deixar-te-ão nas noites onde passas!


Canoas, março de 2009/RS_Brasil

quarta-feira, 28 de julho de 2010

02.04 - Poetas - Watfa Ramos * Vazias esperanças


Watfa Ramos
***

Vazias esperanças

Watfa Tannus Ramos,
sempre viverás em nós!


Esperanças e meus anseios
eu os carrego bem fechados
nesse baú vazio, porém cheio
de espaços nulos guardados.

Nos veios da pesada madeira,
que do objeto formam limites,
seca seiva endurecida, cheira
odor velho, que ao longe emite.

Árvore onde o corte deu porção,
em lascas, ao objeto de meu uso,
também vazia, deitada ao chão,
não mais chora seu leite profuso.

Do ar, que comprimido permeia
ambiente de escondidas paixões,
partículas rogam que, à mancheia,
sejam plenas de amor, às porções!

Continua porém meu baú vazio.
Nada vem ocupar seus espaços;
à mim chega a sensação de frio.
Esperanças, sentires? Fracassos!


Watfa T. Ramos,
2008

segunda-feira, 26 de julho de 2010

02.03 - Poetas - Maria da Graça Almeida * Ao Poeta

Maria da Graça Almeida

***

Ao Poeta


Sua palavra é feito água,
que se infiltra cristalina,
entre os lábios sequiosos
de um sedento que definha.

É um som que vem de longe
e arrebata-me os sentidos,
é a palavra que se encaixa

feito nota em meus ouvidos.


Vem com letras decididas,

faz a frase resolvida.
Sobre as linhas sublinhadas
traz sua face estampada.

Já conheço sua letra
e o traçado da escrita.

Reconheço-a facilmente,
mesmo se não manuscrita.

                                                                                    *
Nota: De uma tentativa de aproximação à poesia de Maria da Graça Almeida, escrevi, há alguns anos, sobre este poemas: "O poema "Ao poeta" será um apelo irresistível a Orfeu e à sacralização da Poesia". José-Augusto de Carvalho

domingo, 18 de julho de 2010

04-01 - Perenidade * Watfa Ramos

Evocar Watfa Ramos é convocar a beleza e a delicadeza de alma.
Quis a morte arrebatá-la, deixando CantOrfeu de luto. Neste grupo viverá sempre, quer nos poemas que escreveu, quer na saudade imperecível.
Na etiqueta Poetas viverão os seus poemas.
Até sempre, querida e inesquecível Amiga!
José-Augusto de Carvalho

02.02 - Poetas - Lílian Maial * O poeta que chorava sonetos


Lílian Maial
***

O poeta que chorava sonetos


Para ninar poeta toque um sino,
Que o som desse silêncio não faz rima,
Se a música dos sonhos não anima,
Melhor trocar as cordas do violino.

Poeta não tem sono e nem destino,
Qual lua, que desdenha lá de cima,
De estrelas aparadas com u'a lima
Nas pontas, pelas mãos desse menino!

Se o meu poeta sofre a noite em claro,
E esquece o meu amor, presente caro,
Que as trevas acompanhem seu porvir!

Mas se a saudade bate à tua porta,
Nos sonhos tua musa te conforta,
Enxuga a teu soneto e vai dormir!...
*
Publicado no grupo CantOrfeu em 24 de Setembro de 2006