Neste espaço se divulga a actividade do grupo restrito CantOrfeu.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

02.09 - Poetas * Gabriel de Fochem * Ontem e hoje

 
 
Hoje é o tempo que tenho.
Hoje é o tempo que sou.
Sou o tempo que encontrou
o meu tempo, que sustenho
na certeza dos meus passos
e no calor dos teus braços.

Diverso outro tempo tive
do tempo sempre em viagem.
Trago o tempo na bagagem
enquanto o tempo em mim vive.
Salto no espaço, sem rede...
Mergulho num mar de sede!

Rasgo os longes de infinito!
Ninguém sufoca o meu grito!

 
7 de Outubro de 2002.

02.08 - Poetas * Tuphy Mass * A pedra do feitiço

Nas tuas mãos, a pedra do feitiço
refulge, incandescente, em tons vermelhos.
Travessos, os teus olhos, num derriço,
divertem-se no jogo dos espelhos...
*
De ti, desvio os olhos, contrafeito,
num ar de adolescente insegurança,
ainda que, a saltar dentro do peito,
meu coração ensaie ardente dança.
*
E tento adivinhar, numa aflição,
se te divertes ou se me escarneces.
E o tempo pára, numa assombração!
*
E, despeitado, eu sou quem não mereces,
um sonho de fascínio e tentação
que morre porque em mim te desvaneces...

*
4 de Setembro de 2007.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
Da colectânea em construção:
«O Livro de Horas de Tuphy»

02.08 - Poetas * Tuphy Mass * Em lágrimas


Não vou nem fico, pairo sobre as águas
Limosas da lagoa verde-escura…
Com lágrimas, eu lavo as minhas mágoas
Quando me dói de mais a desventura…

Morri quando na barca de Caronte
Partiste para o frio esquecimento.
Agora, qualquer dia que desponte
Não me dará nem luz e nem alento.

Se foi imperecível o sentido
Que deste ao lucilar do setestrelo
Foi porque imperecível te queria…

Caronte te levou. O sem sentido
Ficou imperecível pesadelo
Até que o fim sufoque esta agonia…

Lisboa, 5 de Agosto de 2011

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

02.14 - Poetas * Geraldes de Carvalho * Ó Tejo-mar

Geraldes de Carvalho
***
Ó Tejo-mar
Ó Tejo-Mar...
Ó Tejo meu
nas tuas águas
se afunda
o pensamento
que sou eu.
*
E ali
invento
o navegar
que nos levou tão longe
que não soubemos já
ficar.
*
E é ficar que devemos
que os outros povos têm
também
os sonhos que são seus
de mais ninguém.
*
Às vezes
Tejo meu
me apetece
em ti morrer.
Sei que me levarias para longe
lá onde mora-habita
o meu sonhar.
Longe que não existe,
que seja meu
eu sei,
porque todos os longes
de além
já são de alguém.
*
E assim,
ó Tejo meu,
se eu quero ir longe
não será navegando,
só pode ser voando
além do Tejo
além do mar
além do além .

02.05 - Poetas - Eliane Couto Triska * Movimento final

Eliane Couto Triska,
Estação Ferroviária de São Bento, na cidade do Porto, Portugal

***

Movimento final




Coubéssemos numa sonata,
nossos risos e alegros
trariam o frio das bocas
às dores que, ao fim, se voltem,
perdidas no tempus mortem.
Sobrem poucas!
*
Coubéssemos numa sonata,
nossos lençóis encenariam o drama
da causa humana ao mar bruto,
pesados de velhice,
que, se de nós tudo disse,
venha a luto!
*
Coubéssemos numa sonata,
cada um dia do eterno
seria o menos do nada,
e, de nós dois,
o mais velho!

domingo, 7 de agosto de 2011

06.02 * Prosadores * Lizete Abrahão * Meu querido menino!

 
 
Ah, meu menino, se tu não tivesses partido, voado com teus sonhos às nuvens, tuas mãos ainda estariam entre as minhas, como quando tinhas medo do escuro...
Ai, se ainda pousassem nos meus olhos tuas pupilas límpidas, ansiosas de verem o mundo, tua pressa de viver seria a pressa de correr para os meus braços...
Ah, menino! Se teu carinho não fosse apenas lembrança da tua ausência a ferir-me o sono, a noite nunca mais se faria neste eterno vazio...
Ah, meu menino! Como eu gostaria de saber do teu sorriso, dos teus passos pela casa, das tuas manhãs preguiçosas e mornas...Como eu queria que o som da tua voz me acordasse de noite, não importando em qual hora do meu dormir e que fosse embora esse tempo oco do teu calor...
Ah, menino distante! Não posso mais cantar para rires, nem te embalar...Não posso mais nem mesmo sentir-te febril, proteger-te...Foste para um mundo azul com tanta pressa...um mundo fora de mim, fora do sol, da lua, desta vida...
Ah, menino querido, apressado!...Se soubesses o que é a saudade, não terias ido buscar essa a paz, assim, tão cedo, deixando minha casa desabitada de ti e minha alma deserta, sedenta da tua presença...
Ah, meu menino! Se pudesses ver-me agora, renascerias nem que fosse por um segundo para mitigar essa dor de fome e sede de esperança...
Ah, meu filho, se tu imaginasses o que é estar vivo sem viver, não terias voado, menino, nas asas do sem volta...
(Ao meu filho Andrei)
Lizete Abrahão

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

02.01 - Poetas - Lizete Abrahão * Outra vez...


Delícia a carícia...
Tua boca louca
nem falava, me calava.
No beijo de desejo
Ondulavas, me sondavas...
Na cama em chama
Eu desmaiava, m'entregava...
Só nós dois depois
(À-toa, tempo s'escoa...)
Na calma da alma,
Eu te dizia: já é dia,
Vais embora, agora!
Ficavas, me amavas
Outra vez... com avidez.


In «Nós Poesia», Dezembro de 2002.
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil