Neste espaço se divulga a actividade do grupo restrito CantOrfeu.
domingo, 22 de abril de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * Fadário
Provei, no meu baptismo, o símbolo do sal.
Provei e não gostei, decerto, do amargor.
Provei, bebé ainda, o gosto a Portugal.
Provei, sem crer no Fado, o fel do seu sabor.
O Bem fugaz provei no leite maternal.
O duradouro Mal depois se soube impor.
E nem no tempo vão do breve Carnaval
eu vi, de novo, o Bem, num cântico de amor.
Meu ânimo de bravo ousou o Bojador.
Ao Cabo Não gritei: arreda, o meu fanal
é mais além de ti e até do Adamastor!...
Às Índias arribei! Além do chão natal,
sofri, morri, sonhei, amei com tanto ardor,
que em todo o mundo existo ainda Portugal!
José-Augusto de Carvalho
9.X.2010.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
02.14 - Poetas * Geraldes de Carvalho * Lembrança
Sinto as faces orvalhadas
de um beijo teu
e esse orvalho me recorda
um outro beijo
que minha mãe me deu
quando era ainda infante
- infante de mal nascido -
quando isso aconteceu.
É coisa que não me lembra
nem me podia lembrar
mas que ficou como inscrita
na minha face
e não morreu.
De maneira que se agora
ela volta a ser beijada
reaviva -reavida- a outra marca
ali deixada
- não bem o que aconteceu...-
Quem sabe se apenas sou
a lembrança da lembrança da lembrança
de um outro que aqui viveu.
domingo, 22 de janeiro de 2012
07.01 - Parcerias * JA/LA * Espera/Espera-me
Espera
Tuphy
Al Andalus
20.01.2012
Na leveza da pluma
A carícia da tarde
No murmúrio da brisa
O dulçor do segredo
A dizer-me que vens
No crepúsculo morno
E eu espero que venhas
Na leveza da pluma
*************
Espera-me!
Amine
النص الأصلي:
22.01.12
Irei, mas sem que me acordes...
Quero que sempre recordes:
Minha inefável figura
É outra: antes, auroras;
Agora, a vida costura
Distâncias de mim e agoras.
Quero-te, concreto, absurdo..
Que o mundo fique surdo
À imagem que me agita e cede
Ao tempo que nos precede!
Espera-me, já estou indo...
De saudade, me esvaindo...
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
02.06 - Poetas - Conceição Paulino * À distância do olhar
Para minha filha Alexandra
à distância do olhar
te quero.
seguir cada traço
cada linha
cada marca
por pequena
cada expressão facial
/mínima embora/
com os olhos acariciá-las. acariciar-te.
à distância do olhar.
é sempre à distância do olhar
que te quero te desejo.
do olhar. de um olhar.
próximo, /á medida da extensão
do braço/ da mão.
mas qual será a distância
do olhar? de um olhar?
olho e vejo as longínquas
montanhas.
a Lua e as ainda mais distantes
as estrelas.
tudo se encontra à distância do olhar,
de um olhar
e, ainda assim,
inacessíveis me permanecem.
e tu?
que importa a distância
que medeia
entre ti e meu olhar,
entre ti e meu braço
ou minha mão?
será a distância do olhar
/ao ser-se olhado/
medida de proximidade?
à distância do olhar
te quero.
seguir cada traço
cada linha
cada marca
por pequena
cada expressão facial
/mínima embora/
com os olhos acariciá-las. acariciar-te.
à distância do olhar.
é sempre à distância do olhar
que te quero te desejo.
do olhar. de um olhar.
próximo, /á medida da extensão
do braço/ da mão.
mas qual será a distância
do olhar? de um olhar?
olho e vejo as longínquas
montanhas.
a Lua e as ainda mais distantes
as estrelas.
tudo se encontra à distância do olhar,
de um olhar
e, ainda assim,
inacessíveis me permanecem.
e tu?
que importa a distância
que medeia
entre ti e meu olhar,
entre ti e meu braço
ou minha mão?
será a distância do olhar
/ao ser-se olhado/
medida de proximidade?
02.10 - Poetas - Herculano Alencar * Aos pedantes
Quem vive a ruminar sabedoria
e defecar cultura e erudição...
Quem vive a esputar a pretensão
de ser maior do que a maioria...
Quem vive a dar quinau em Salomão,
em Sócrates, Platão, José, Maria...
Quem vive a exaltar a própria cria
como se fosse a única lição...
Quem vive a ultrajar a poesia
que há numa palavra de carinho...
Quem vive a espalhar pelo caminho
o preconceito, algoz da utopia,
há de amassar o pão de cada dia
com algum verme, até morrer sozinho.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
02.14 - Poetas * Geraldes de Carvalho * ...amarelou
O cisne quando cantou
amarelou.
Ele sabia que era
um cisne
e não sabia cantar
por isso teve de amarelar
para se disfarçar.
Cantava assim :
Quem me dera não ser cisne
negro ou branco
não queria...
Sei que sou belo é verdade
mas não canto.
Nem parece que sou ave
esta é a realidade.
Posso pensar,
já se sabe,
mas pensar
não é próprio
de mim
que sou ave
assim, assim
mas não canto...
Posso exibir
meu pescoço
longo
flexível
esguio
próprio de deusa
...e cantar
mas não canto.
Seria bom existir
mesmo no fundo do poço
sem que ninguém o soubesse
se ali pudesse estar
a cantar
- cantava ele
sem que porém, o soubesse -.
E amarelou
sem saber que amarelava.
E pensou
mas não sabia
que pensava.
Era cisne
e lhe bastava.
Mas como não parecia
e tinha uma graça tanta
encantava
espantava
quem o via,
quem o ouvia.
Será que ainda hoje espanta?
Será que ainda hoje encanta ?
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