Neste espaço se divulga a actividade do grupo restrito CantOrfeu.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

02.10 - Poetas - Herculano Alencar * Aos pedantes


Quem vive a ruminar sabedoria
e defecar cultura e erudição...
Quem vive a esputar a pretensão
de ser maior do que a maioria...

Quem vive a dar quinau em Salomão,
em Sócrates, Platão, José, Maria...
Quem vive a exaltar a própria cria
como se fosse a única lição...

Quem vive a ultrajar a poesia
que há numa palavra de carinho...
Quem vive a espalhar pelo caminho
o preconceito, algoz da utopia,

há de amassar o pão de cada dia
com algum verme, até morrer sozinho.




terça-feira, 17 de janeiro de 2012

02.14 - Poetas * Geraldes de Carvalho * ...amarelou













O cisne quando cantou
amarelou.


Ele sabia que era
um cisne
e não sabia cantar
por isso teve de amarelar
para se disfarçar.


Cantava assim :


Quem me dera não ser cisne
negro ou branco
não queria...

Sei que sou belo é verdade
mas não canto.


Nem parece que sou ave
esta é a realidade.


Posso pensar,
já se sabe,
mas pensar
não é próprio
de mim
que sou ave
assim, assim
mas não canto...


Posso exibir
meu pescoço
longo
flexível
esguio
próprio de deusa
...e cantar
mas não canto.


Seria bom existir
mesmo no fundo do poço
sem que ninguém o soubesse
se ali pudesse estar
a cantar
- cantava ele
sem que porém, o soubesse -.


E amarelou
sem saber que amarelava.


E pensou
mas não sabia
que pensava.


Era cisne
e lhe bastava.


Mas como não parecia
e tinha uma graça tanta
encantava
espantava
quem o via,
quem o ouvia.


Será que ainda hoje espanta?

Será que ainda hoje encanta ?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * Poema para Maria de Magdala


Que manto de silêncio assim te esconde,
perdida sob névoa e banimento?
Já nem o eco à minha voz responde!
Até te silencia a voz do vento!

A boa nova, espanto e maravilha,
aos outros que ficaram, tu levaste.
Eleita, confirmaste, na partilha,
a força da raiz na frágil haste.

O turbilhão dos tempos te tragou.
Das trevas sem registo e sem memória,
a lenda que o sem tempo deslumbrou
no todo o sempre escreve a tua história.

Na tela onde o pintor te quis dilecta,
eu vivo a minha angústia de poeta.

 
José-Augusto de Carvalho
26 de Dezembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

02.10 - Poetas * Herculano Alencar * A face oculta do Natal


Papai Noel, meu filho, é utopia.
É quase um sonho vindo do além
para carpir, na dor que o mundo tem,
o solo que sepulta a poesia.

Papai Noel, meu filho, é um alguém
que já não ri do jeito que sorria,
quando o Natal não era só o dia
de penhorar o último vintém.

Papai Noel, meu filho, é um cartão
de crédito ou de débito, um talão
de cheques pré-datados que, sem fundo,

esperam pelo décimo terceiro.
Papai Noel, meu filho, é o dinheiro
que hoje toca sinos pelo mundo.






terça-feira, 20 de dezembro de 2011

02.06 - POETAS * Conceição Paulino - Poema



















No céu, a curva
lâmina brilhante,
navega.


Nela me deito
a olhar a terra
de águas quase coberta.


A lâmina, macio colchão,
afaz-se à curva
do meu corpo.


Afaga-me, no ninho
em que me envolve.


Lá em baixo, na terra,
uma mulher
olha-nos
espantada.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

02.10 - Poetas * Herculano Alencar * Metáfora do amor eterno



E voa, e voa, e voa, e não descansa,
que o céu até parece de brinquedo.
E leva em cada asa um segredo
que escondeu nos sonhos de criança.

E voa, entre a coragem e o medo,
por sob a dor silente e o gemido,
a procurar o beijo adormecido
que pôs uma aliança no seu dedo.

E voa... pés no chão, olhar perdido...
um eco a ressoar no seu ouvido
a voz, de um amor, emudecida.

E voa, e voa, e voa, e não se cansa
de bater asas (plumas de esperança)
atrás do mesmo amor em outra vida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * Pátria minha!

Pátria minha!
O vento, rijo, as ondas encapela.
Aflitos, gemem mastros e velames.
À capa, marinheiros! Aos cordames!
E sobre a barca abate-se a procela.


As vagas galgam já as amuradas
e banham o convés, enraivecidas.
Há preces de temor entretecidas
e angústias de paragens assombradas!
 
Indómita, à deriva, a barca aguenta
as investidas múltiplas do mar.
Ah, pátria minha, urgente é navegar
até além do medo e da tormenta!

E quando forem horas de render,
oh pátria, que nos saibam merecer!...

José-Augusto de Carvalho
7 de Fevereiro de 2009.
Lisboa * Portugal