Neste espaço se divulga a actividade do grupo restrito CantOrfeu.

domingo, 28 de agosto de 2011

02.10 - Poetas * Herculano Alencar * A flauta mágica


Ao longe, bem pra lá do infinito,
ouve-se, da flauta, o assobio,
como o sussurro de um lar vazio
que a qualquer hora vai soltar o grito.
 
Um riso torto, um olhar contrito,
uma carícia em busca de um seio,
uma paixão no coração alheio,
qual um poema ainda não escrito.
 
Ao longe, bem pra lá do infinito,
já pode-se enfim ouvir grito
egresso da prisão do lar vazio.
 
A flauta assobia sem receio,
enquanto acaricio um belo seio
e deixo a poesia entar no cio.
 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

02.02 - Poetas * Lílian Maial * Entropia

Poupa-me da travessia de noites extraviadas,
Da ditadura dos suspiros da palavra,
Da moldura do teu sorriso pérsico.
*
Livra-me da ensurdecedora notícia dos teus dias,
Da premissa das frestas de olhares vagos,
Do impulso premente de fiar ausência.
*
Preserva-me das lôbregas profundezas da covinha do teu queixo
E do abismo abrolhoso do silêncio,
Em queda livre por anos-luz de apascentar dúvidas.
*
Quisera desvendar-te, conhecer teus oblíquos motivos,
Enfeitar teus suores de rubor pérfido,
e colher o rescaldo do ofertório de claustro mariposeado ao teu redor.
*
Expulsa-me da cama de opalina,
Da torturante mácula do vazio,
E lança-me à demência, envolta em sídon,
Para que eu possa riscar-te de mim
E enterrar o olhar cisalhante,
Pousado nos galhos reumatóides
Do solstício do que não vivi.

02.02 - Poetas * Lílian Maial * Perversão


Há um doce descontentamento na poesia.
Uma saudade, um eco,
um barco sem vento.
Coisa de amor esquecido.
*
No esquecer, sempre haverá parte do que foi,
deixado nas letras silenciosas.
*
A poesia é inútil.
Há versos demais, beleza demais
e pouco chão.
*
Não é tarde, contudo.
Preciso partilhar a luz dos meus olhos
e acordar da tua existência,
onde só tu existes.
*
Faria tudo de novo
e mais nada!
*
Coisa perversa é a paixão:
confunde, explode,
é breve,
como uma febre
e passa.
*
Desejo apenas viver mais uma noite.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * O meu dever

Bartolomeu Dias, ousando o Adamastor,
no Cabo das Tormentas / Cabo da Boa Esperança.

*
Devo cantar e canto as glórias celebradas,
que emergem da raiz e os louros sacralizam...
Devo chorar e choro as perdições passadas
e, agora, as perdições que os tempos profetizam.
*
Devo gritar e grito, ao frio deste cais,
que outroragora o mar será o meu caminho...
Devo dizer, e digo, o não de nunca mais
à renúncia onde sou e mísero definho.
*
Não quero ser nem sou a rês que, no redil,
espera, resignada, o tempo da matança.
Aqui, eu quero ser, ao sol do mês de Abril,
a vida a florescer auroras de esperança.
*
E canto e cantarei o assombro dos pinhais,
que são este destino ousando além do cais!

*
11 de Junho de 2011.
Viana * Évora * Portugal

02.05 - Poetas * Eliane Couto Triska * Meus anos...


(Um mimo do Face do Franco Peluso)




Tenho 58 anos de saudades

e outros tantos

sem saberem a idade...




Canoas, 21 de agosto de 2011.

sábado, 20 de agosto de 2011

07.01 - Parcerias * Ah, Poesia! * José-Augusto de Carvalho-Lizete Abrahão


Ah, Poesia!


Ah, Poesia, eu não consigo ser
poeta neutro em Torre de Marfim!
Se foi o que quiseste ter de mim,
prefiro te perder a me perder...

Talvez poeta seja, mas, primeiro,
sou homem por direito e condiçã
Um homem que tem norte e tem timão
não pode ter grilhões nem carcereiro.

Eu canto as asas livres deste Céu!
Eu choro a flor que o tempo emurcheceu!
Eu luto contra todas as algemas!

Por transgredir aceito ser teu
e, por defesa, alego que meu eu
aqui te enfrenta com ou sem poemas!

José-Augusto de Carvalho
23 de Março de 2006.
Viana * Évora * Portugal

***
 
Ah, Poesia!

Lizete Abrahão
24.03.2006

 
Ah, Poesia, eu só consigo ser
poeta plena, entre o amor e o fim.
Foi isso que quiseste ser em mim:
perdi-me em ti, em mim vieste ser...

Mulher eu sou e dou-me, assim, inteira
Nas noites que me cortam como aço,
Aos versos que, da tua luz primeira,
Acendem o desejo em que me faço...

Eu canto, do meu homem, a ausência
Eu grito pela flor que não sou mais
Eu choro a dor que em meus lábios calo...

Meus versos são minha vâ urgência
Do meu ser, eles brotam imortais,
Mas morrem entre mim e o que não falo...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

02.03 - Poetas * Maria da Graça Almeida * Ao meu amor


 
Sem dúvidas, hoje eu sei,
você, sim, é o meu rei,
ontem foi príncipe infante,
hoje é meu herói relevante!
*
Um homem de olhar menino,
meu tesouro masculino,
da lira, o tom maior,
das minhas metades, a melhor!
*
O dono do meu amor,
forte luz multicolor,
compõe a paixão no plural,
amaina meus vendavais!
*
Seu ser calmo e profundo
traduz a essência do mundo,
resgata com temperança,
minha alma criança.
*
Conquista-me de um certo jeito,
em versos mais que perfeitos.
Com gestos de pura doçura,
espalha magia e ternura!
*
Conferindo seu meigo rosto,
enquanto amiga e amante,
assumo tão alto posto,
serena e confiante!
*
Rogo que nossos destinos
caminhem sem desatinos,
trilhando as mesmas pegadas,
juntos e de mãos dadas.
*
E quando outra vez crianças,
cabeças pálidas, brancas,
que, frente a indícios de escombros,
um do outro tenhamos o ombro!