Neste espaço se divulga a actividade do grupo restrito CantOrfeu.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * Poema para Maria de Magdala


Que manto de silêncio assim te esconde,
perdida sob névoa e banimento?
Já nem o eco à minha voz responde!
Até te silencia a voz do vento!

A boa nova, espanto e maravilha,
aos outros que ficaram, tu levaste.
Eleita, confirmaste, na partilha,
a força da raiz na frágil haste.

O turbilhão dos tempos te tragou.
Das trevas sem registo e sem memória,
a lenda que o sem tempo deslumbrou
no todo o sempre escreve a tua história.

Na tela onde o pintor te quis dilecta,
eu vivo a minha angústia de poeta.

 
José-Augusto de Carvalho
26 de Dezembro de 2011.
Viana*Évora*Portugal


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

02.10 - Poetas * Herculano Alencar * A face oculta do Natal


Papai Noel, meu filho, é utopia.
É quase um sonho vindo do além
para carpir, na dor que o mundo tem,
o solo que sepulta a poesia.

Papai Noel, meu filho, é um alguém
que já não ri do jeito que sorria,
quando o Natal não era só o dia
de penhorar o último vintém.

Papai Noel, meu filho, é um cartão
de crédito ou de débito, um talão
de cheques pré-datados que, sem fundo,

esperam pelo décimo terceiro.
Papai Noel, meu filho, é o dinheiro
que hoje toca sinos pelo mundo.






terça-feira, 20 de dezembro de 2011

02.06 - POETAS * Conceição Paulino - Poema



















No céu, a curva
lâmina brilhante,
navega.


Nela me deito
a olhar a terra
de águas quase coberta.


A lâmina, macio colchão,
afaz-se à curva
do meu corpo.


Afaga-me, no ninho
em que me envolve.


Lá em baixo, na terra,
uma mulher
olha-nos
espantada.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

02.10 - Poetas * Herculano Alencar * Metáfora do amor eterno



E voa, e voa, e voa, e não descansa,
que o céu até parece de brinquedo.
E leva em cada asa um segredo
que escondeu nos sonhos de criança.

E voa, entre a coragem e o medo,
por sob a dor silente e o gemido,
a procurar o beijo adormecido
que pôs uma aliança no seu dedo.

E voa... pés no chão, olhar perdido...
um eco a ressoar no seu ouvido
a voz, de um amor, emudecida.

E voa, e voa, e voa, e não se cansa
de bater asas (plumas de esperança)
atrás do mesmo amor em outra vida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * Pátria minha!

Pátria minha!
O vento, rijo, as ondas encapela.
Aflitos, gemem mastros e velames.
À capa, marinheiros! Aos cordames!
E sobre a barca abate-se a procela.


As vagas galgam já as amuradas
e banham o convés, enraivecidas.
Há preces de temor entretecidas
e angústias de paragens assombradas!
 
Indómita, à deriva, a barca aguenta
as investidas múltiplas do mar.
Ah, pátria minha, urgente é navegar
até além do medo e da tormenta!

E quando forem horas de render,
oh pátria, que nos saibam merecer!...

José-Augusto de Carvalho
7 de Fevereiro de 2009.
Lisboa * Portugal

domingo, 16 de outubro de 2011

02.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * O rio



Bélgica, rio Eau-Noire galgando as margens (foto Internet)


Naquele tempo, já o rio tinha
a condição de rio decidida:
nascia e da nascente-berço vinha,
em múrmura canção indefinida.


Por entre margens, dócil, caminha.
Um fio de cristal na teia urdida.
Não sabe por que vai nem adivinha
que há sempre um por haver desde a partida.


A submissão de muito longe vinha!
Mas uma força em si desconhecida
lhe diz que não é mais a ténue linha
por doce devaneio distendida…


E, rindo-se, descobre a teia urdida
e mais, que além das margens há mais vida!


 

16 de Outubro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

02.09 - Poetas - Gabriel de Fochem * In memoriam

Montado, vista parcial - Foto internet


Só nos livros antigos encontro
a memória de ti, desencontro
do teu tempo e do meu, descaminhos
eriçados de náusea e de espinhos.

Nem existes nas vozes do cante!
Nem há vento suão que levante
tua sombra do chão, sepultada
nos caminhos de náusea e de nada.

Outros tempos, tão velhos!, chegaram,
porque os novos, quem sabe onde param?


4 de Outubro de 2011.
Viana*Évora*Portugal