Neste espaço se divulga a actividade do grupo restrito CantOrfeu.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

06.01 - Prosadores * José-Augusto de Carvalho * No cair da folha

OS FANTASMAS DA MEMÓRIA

 No cair da folha


As nuvens cheias de água provocavam dias de pálida e humedecida claridade. Novembro ia adiantado nos dias. As folhas das árvores, amarelecidas, iam caindo. Dobrava a finados. Morrera o Faustino. Deixava viúva e quatro crianças, ainda de colo a mais nova.
-- Com o cair da folha, é sempre esta desgraça! -– sentenciava Ti’Zé das Águias. -– Coitado do Faustino! Assim morre, pouco passando dos trinta!...
O silêncio pesava sobre as pessoas que esperavam o esquife. Todas pensavam, seguramente, o mesmo que Ti’Zé das Águias.
-- E agora? Que vai ser da pobre e dos inocentes que vão ficar p’r’aí ao deus-dará? -- Tornou Ti’Zé, angustiado.
Jerónimo fechara a venda e chegava a tempo de ouvir esta interrogação.
--Ora, Ti’Zé! Agora, será como das mais das vezes… é sempre a mesma desgraça! Ai de quem morre! Quem cá fica, continuará aos trambolhões, que é a nossa sina!
Um ruído abafado de passos anunciava a chegada do funeral. Quatro homens, taciturnos, sustinham o esquife. Atrás, a viúva, as crianças e alguns vizinhos. Elas, de lenço preto; eles, de chapéu na mão. Haviam descido a chapada e chegado ao Largo. Numa agitação silenciosa, as pessoas que esperavam tomaram o seu lugar atrás das que chegavam e lá foram levar o Faustino à última morada. Toda a aldeia de Alambra estava de luto. À frente, seguia o padre, como que abrindo o caminho.
Ti’Zé das Águias seguia logo atrás da viúva e das crianças. Olhos no chão, vergava-lhe o corpo uma grande tristeza. Faustino, agora, ali, sem vida, era filho do Raimundo, o seu companheiro que se finara na Flandres às mãos dos boches. Raimundo mal conhecera o filho. Faustino não tinha memória do pai. Tinha apenas meses de vida quando Raimundo partira para sempre, para a guerra. Agora, partia Faustino para sempre, deixando, também ele, os filhos por criar. Num soluço, praguejou: Puta de vida esta!
No cemitério, a cerimónia foi rápida. O padre, finda a sua intervenção, acercou-se de Ti’Zé das Águias.
-- Então, Zé! Como vão as coisas no Monte? E o teu patrão? Há tempo que o não vejo!
-- Vai-se caminhando, senhor prior. O patrão lá anda nos médicos.
O padre era um homem mais velho que Ti’Zé das Águias. Falava baixinho, numa voz sem timbre e ciciada, denunciando a origem beirã.
Ti’Zé, fixando-o nos olhos, recriminou:
-- Senhor prior, tínhamos tanta esperança na salvação do Faustino! Eu sei que era a tísica, mas o senhor mesmo dizia para termos esperança em Deus, porque Deus o salvaria! E afinal…
O padre olhou-o com tristeza e murmurou:
-- Pois foi, Zé, Deus não quis…
Zé das Águias estremeceu.
-- Com’assim? Deus não quis? E fina-se tão cedo uma criatura? E deixando uma desgraçada carregada de filhos e de miséria?
-- A gente não sabe tudo, Zé! São os insondáveis desígnios de Deus… -- desabafou o padre.
Zé das Águias encarou-o, friamente:
-- Palavras bonitas sempre o senhor prior tem para dizer à gente, bonitas e que eu não alcanço; mas alcanço uma coisa: que morreu um homem na flor da vida e que fica viúva uma desgraçada rodeada de filhos sem pão nem razão!
José-Augusto de Carvalho
30 de Julho de 2010.
Viana*Évora*Portugal

06.00 - Prosadores


Com a criação desta etiqueta -- Prosadores, iniciamos a divulgação dos trabalhos em prosa dos membros do colectivo CantOrfeu.

Vamos cumprindo, assim, o descritivo do nosso grupo:

O CantOrfeu pretende ser um espaço onde coexistam todas as manifestações de arte.
Cada um dos seus membros será uma parte indissociável do todo,com iguais direitos e deveres quanto ao seu objectivo.

02.12 - Poetas * Alberto Peyrano * Himno supremo

Alberto Peyrano

Respira el Universo.
Expande las olas del fuego Sagrado
mientras agota chispas primordiales
que retornan al principio del Silencio.
La Creación es el Himno Supremo
que exhalan las criaturas de Prometeo
con la conciencia de su misión,
conservando el equilibrio de lo eterno.
El mar palpita en las cuerdas,
los bosques agitan el bronce,
llama viva acrecentada brota en cada nota,
el aire juega enamorado
envolviendo a Natura con su danza.
Todo fluye, se extiende, se contrae.
El insoslayable compás del pizzicato
ajusta la permanencia de la Esencia
en soberbia factura.
Cántico conciente, grito agradecido.
Sólo el sucederse, el silencioso devenir,
la Belleza aflorando eterna
besando de continuo a la Conciencia,
mansamente, sellando a cada instante el pacto
por el cual cada eslabón es necesario y
a la vez irrepetible
en la colosal cadena de la Vida.
El Sol, con su apariencia de quietud solemne,
realeza y oro,
sonríe agradeciendo
su nuevo día en la creación sin límites.
Giro esencial,
voluta de energía,
espiral sin fin
en la oscuridad-luz de la galaxia,
vórtice primigenio,
corazón cósmico que no muere y se renueva,
mi ser, partícula de Luz
micronésima y precisa,
en su expresión exacta y rigurosa,
recibe el hálito del Amor Universal
y continúa.

© Alberto Peyrano

(Necochea, Argentina, enero 2008)
***
HINO SUPREMO
O Universo respira.
Expande as ondas do fogo sagrado,
enquanto exaure as centelhas primordiais
que regressam ao princípio do Silêncio.
A Criação é o hino supremo
que as criaturas de Prometeu exalam,
conscientes da sua missão
de conservarem o equilíbrio do eterno.
Na melodia transcendental,
o mar palpita nas cordas,
os bosques agitam o bronze,
de cada nota, em crescendo, uma chama viva brota,
o ar diverte-se, enamorado,
enlevando a Natureza na sua dança.
Tudo flui, tudo se expande, tudo se contrai.
O arrebatado compasso do pizzicato
determina a permanência da Essência
numa revelação sublime.
Cântico da consciência, agradecido clamor.
Constante e só, o silencioso acontecer
na Beleza que se descobre eterna,
beijando continuamente a Consciência
e selando mansamente, momento a momento, o pacto
onde cada elo é necessário
e sempre irrepetível
na admirável cadeia da Vida.
Solene, na sua aparente quietude,
o Sol — todo majestade e ouro —sorri agradecendo
o alvor de cada novo dia, numa criação sem limites.
Movimento essencial,
voluteia de energia
numa espiral infinita
no breu-luz da galáxia.
Vórtice primigénio,
coração cósmico que imorredouramente se renova,
meu ser, partícula de luz
microscópica e precisa
numa expressão exacta e rigorosa,
recebe o hálito do amor universal
e continua.

Versão em português de
José-Augusto de Carvalho
(Viana * Évora * Portugal, Janeiro de 2008)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

02.11 - Poetas * Conceição di Castro * Caminhos

Conceição di Castro
 
Na avenida, sempre o látego forte
caminha no lago barrento
da escuridão. Não sei se é profundo,
nem sei se é escuro demais.
.
O viajor pela estrada vai caminhando,
sentindo a carne se desfazendo
no campo da esterilidade.
.
Só olhos pelo infinito, se vai
na procura do próprio breu.
Breu da angústia, da melancolia.

04.00 - Perenidade



Nesta etiqueta se registam as Companheiras e os Companheiros que já não estão no grupo CantOrfeu, mas que, com a sua presença, contribuiram para dignificá-lo e enriquecê-lo.

03.00 - Registo


Esta etiqueta pretende relevar quanto directa ou indirectamente interesse ao colectivo do grupo CantOrfeu.

02.10 - Poetas * Herculano Alencar * Drama urbano

Herculano Alencar

 
Entre todas donzelas do sobrado
Havia uma deusa: Madalena!
Lábios carnudos e pele morena,
Olhos perdidos e jamais achados.
Também perdia a conta dos pecados,
Dos beijos enfeitados de paixão...
Só não perdia todo o coração,
Porque seu coração já tinha dono.
Perdia a luz do dia junto ao sono;
E todo o seu orgulho pelo chão.

Abrigo de prazer e de traição...
Ventre silente, sábio, mentiroso...
Sepulcro em que guardava todo gozo
Dos sectários vis da comoção.
A sua boca não dizia não!
Fosse pro beijo mais libidinoso,
Sorria antes de cuspir o nojo
E deglutir o fel do preconceito
De qualquer um que dividisse o leito
Para aninhar os sonhos de esposo.


Lembro seu porte esguio e gracioso,
Sob o decote, os seios indulgentes...
A língua a sibilar, como serpente,
No despertar dum sonho belicoso.
Lembro do bem mais puro e precioso,
Sob os lençóis e o branco do algodão,
A exalar fagulhas de paixão...
A latejar em ansiosa espera...
Rosnava-lhe no peito como fera,
Como quem peca pra pedir perdão.

O ventre ardente na escuridão,
Se oferecia, qual fiel vassalo,
À intrusão do impetuoso falo,
Até desfalecê-lo em lassidão.
Lambia-lhe o gozo como um cão,
Até a quietude da murchez...
E, se preciso, a segunda vez...
Abria-lhe, das trevas, o caminho,
Para abrigar o resto de carinho
Sobrevivente da embriaguez.

Vivia Madalena a viuvez
Que abatia os leitos conjugais.
Despindo a hipocrisia dos casais
Para vestir-lhe o luto da nudez.
Viveu a triste espera do talvez,
A ensaiar amores de atriz.
Chorou, sorriu, foi triste, foi feliz...
Vendendo as sobras de felicidade
Nos labirintos da sociedade,
Junto aos pudores de ser meretriz.