Neste espaço se divulga a actividade do grupo restrito CantOrfeu.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

02.09 - Poetas * Gabriel de Fochem * O pão da verdade

Talvez Gabriel de Fochem
Óleo de Dórdio Gomes, Pintor Alentejano

***
O pão da verdade


Não me peçam nem prece nem círio,
  evocando o doer do martírio!

Eu apenas levanto um padrão
nesse tempo cumprido e prossigo.
Levo o pão repartido comigo
e a Verdade é a minha oração.


A verdade fraterna e concreta,
que balsâmica olora e floresce
quanto mais sobre o pântano desce
o livor que angustia e inquieta.


Neste parto de dor e porfia,
o milagre levanto do chão.
O milagre fraterno do pão,
do pão nosso de todos os dias...

02.08 - Poetas * Tuphy Mass * Trova da Estrada de Damasco

Talvez Tuphy

***

Trova da Estrada de Damasco

Damasco tem uma estrada,
uma estrada que porfia
ser, em cada caminhada,
o raiar de um novo dia.

Pode haver outras estradas,
mas em mais nenhuma existe
o vestígio das pegadas
que ao tempo vário resiste.

No além do tempo sem fim,
quando não houver mais nada,
ainda a voz de Caim

há-de gritar, condenada:
para me salvar de mim,
Damasco tem uma estrada.



Da colectânea em construção:«O Livo de Horas de Tuphy»

03.01 - Registo * Encontro Luso-Brasileiro * Lisboa, 30 de Julho de 2011.

Lílian Maial e José-Augusto de Carvalho.
Atrás, em fundo, a Torre de Belém.

***
Lílian Maial mergulhando os pés nas águas do Rio Tejo, em Lisboa, junto à Torre de Belém. Deste mesmo lugar, partiram Vasco da Gama, rumo à Índia, e Pedro Álvares Cabral, rumo ao Brasil.

domingo, 31 de julho de 2011

O2.13 - Poetas * José-Augusto de Carvalho * Neste chão

José-Augusto de Carvalho

***

Neste chão
Óleo de Dórdio Gomes, pintor alentejano


Não canto porque não quero
nem filhos de algo nem clero.

Poeta, filho do vento,
invento os meus pergaminhos...
Que fiquem por testamento
ao pó de incertos caminhos!...

Poeta sou, panteísta!
Acima de mim permito
apenas quem, alquimista,
poemas faz de infinito...

Poeta sou, neste chão!
E canto como quem lavra
uma promessa de pão
suado em cada palavra...

*
Nota: O poema «neste chão» está incluído na colectânea «Da humana condição», publicada pela EdiumEditores, São Mamede de Infesta, Portugal, em Março de 2008.

domingo, 21 de novembro de 2010

05.01 - I CIRANDA CANTORFEU * Jorge Vicente * Uma ausência

I Ciranda CantOrfeu
(Setembro de 2010)
Jorge Vicente



Uma ausência...

Uma ausência sem poder
mas que destrói o corpo
e o corrói numa cauda
cintilante de cobra


uma ausência que teme
o amor - a presença farta
dos frutos alimentando
o humano

uma ausência que ferve
e não é em mim,
mas pode ser em ti,
ave do céu sem poiso

uma ausência sem humanos,
sem cantos vivos, sem lobos
baloiçando no que nasce
e no que reluz

uma ausência que não quero
porque o amor é feito
de presença,
de pão amado e partilhado
entre os homens.

sábado, 20 de novembro de 2010

05.01 - I CIRANDA CANTORFEU * Lílian Maial * Soneto da Saudade

I Ciranda CantOrfeu
(Setembro de 2010)
Lílian Maial
SONETO DA SAUDADE *

Como o sol, atrás de nuvens carregadas,
o teu brilho nos meus olhos se apagou.
E esse véu, que a tua ausência me deixou,
não impede que essa luz seja espalhada.
*
Como lua solitária e abandonada,
sigo a trilha que o cometa rabiscou.
E o meu céu, que outrora riu, hoje chorou,
dando forma à nova estrela apaixonada.
*
Tantas lágrimas brindaram a tua ida,
tantas noites o meu peito soluçou,
sem amor, agora tão pela metade...
*
Sou pedaço de um planeta suicida,
numa órbita febril que alguém traçou,
colidindo com o vazio da saudade.



* "Soneto da Saudade" é a segunda participação de Lílian Maial nesta nossa I Ciranda CantOrfeu.

05.01 - I CIRANDA CANTORFEU * Nathan de Castro * Ausência

I Ciranda CantOrfeu
(Setembro de 2010)
Nathan de Castro



AUSÊNCIA


Eu sei do meu silêncio em cada verso,
cantando a tua ausência ponto a ponto,
e quando ele reclama eu desconverso,
versando uma mentira conto a conto.

E ponto a ponto aprendo o meu reverso
no inverso do universo: o desencontro,
e conto a conto o grito submerso
emerge e canta: — Eu quero o sonho pronto!

De louco a louco pinto estes sonetos,
para que um dia o verso aprenda a flauta
no sopro agoniado do argonauta...

De sol a sol, nas ruas dos meus guetos,
rabisco estas canções em branco e preto
para encantar a Estrela que me falta.